

Sessões de filmes com entrada franca realizadas por projetos sociais, permitem a inclusão da população excluída social e economicamente, ao mundo do cinema.
Por Emerson Santos
Tendo em vista o difícil acesso ao cinema provocado pelos preços praticados pelas redes comerciais, bem como os seus ambientes que excluem grande parcela da população, são criados projetos que visam atender a essa população excluída, promovendo assim, sessões de filmes com entrada franca e livre acesso.
Formação de Platéia, Cinema no vestibular, Quartas Baianas e Cinema na Biblioteca são projetos que buscam contribuir na formação do cidadão, inserindo ações educativas juntas à acessibilidade a uma programação regular. A Diretoria de Artes Visuais e Multimeios (DIMAS) e a Biblioteca Pública do Estado da Bahia (BPEB), ambas localizadas no bairro dos Barris em Salvador, são as pioneiras nesse tipo de projeto.
A Dimas, que é um órgão público vinculado a Fundação Cultural do Estado da Bahia e à Secretaria do Estado da Bahia possui duas salas de projeção direcionadas aos seus projetos, as salas Alexandre Robatto, com capacidade de 70 lugares e a Walter da Silveira, 200 poltronas. As sessões são diárias. “A programação das salas é basicamente formada por nossas temáticas, como exemplo, nós tivemos aqui em abril, filmes do Regime Militar”, afirmou Conceição Miranda, Coordenadora do projeto Formação de Platéia. Inicialmente eram exibidos somente filmes do acervo, hoje, a Dimas conta com a parceria das videolocadoras GPW e Casa de Cinema.
O projeto Formação de Platéia foi criado com o objetivo de trazer ao mundo do cinema, estudantes da rede pública de ensino e privada, para terem acesso a uma sala de cinema, ou seja, acessibilidade garantida às salas geridas pelo poder público sem ônus e uma programação que tenha um cunho cultural mais conseqüente. “São salas de cinema diferentes, não são salas de cinema comerciais, tem uma programação específica”, ressaltou. Segundo Conceição Miranda, o foco principal são estudantes da rede pública e uma parte da sociedade que é excluída social e economicamente. Pessoas em risco social, que estão em abrigo, adolescentes trabalhados por projetos sociais, não educacionais. “Esse público específico deve estar vinculado a alguma ONG, a algum organismo governamental ou não-governamental”, explica.
“Eu sou completamente favorável à entrada franca, defendo a gratuidade mesmo na sala Walter da Silveira que é paga, porque nós estamos numa cidade como Salvador, que é economicamente pobre e estamos com uma defasagem com relação à arrecadação de impostos”, disse Conceição, que também leciona numa escola pública e vê o quanto que pesa no bolso dos estudantes a tarifa do transporte coletivo. Segundo Conceição, têm distribuidoras que estão com um certo problema com a questão das entradas francas na Sala Walter da Silveira e que a Dimas está até revendo o projeto com relação à gratuidade na sala. Para Conceição, esse questionamento da gratuidade por parte das distribuidoras, talvez seja um fator impedidor de continuação do projeto porque elas são extremamente comerciais.
“Pra defender essa questão aqui na Dimas, eu estou fazendo uma pesquisa nacional com relação à Formação de Platéia, porque não fui eu quem criou, ela existe no Brasil inteiro”, afirma. “O diferencial da minha proposta aqui, é que a gente exibe filme e depois discute o filme, porque formação é isso”, reforça. “Para discutir os filmes, temos a parceria com professores do curso de cinema da FTC e professores da FACOM”, disse. Depois que assiste ao filme, o público tem a oportunidade de fazer uma visita guiada ao parque cinematográfico da DIMAS para conhecer o espaço do fazer fílmico, o acervo filmográfico e bibliográfico especializado em cinema.
Segundo a coordenadora, o problema que a Dimas tem de público na Sala Walter da Silveira é que o programador não pode fazer uma programação ideal, que vá concorrer com as salas do Circuito de Arte, como o cinema do Museu, da Sala de Arte do União e outros. “A gente não têm fôlego para disputar com outras salas que exibem filmes mais novos, mais contemporâneas. Nós temos uma defasagem de público por conta disso”, esclarece.
O projeto Cinema no Vestibular, também da Dimas, visa trazer professores de cinema para discutir com os alunos pré-vestibulandos, o conteúdo do filme e a linguagem cinematográfica. São filmes focados no vestibular da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Um projeto de mesmo cunho educacional da Biblioteca Pública do Estado da Bahia, também voltado para pré-vestibulandos, Cinema na Biblioteca, também é um forte atrativo. Na sala de projeção com 98 lugares, são exibidos quatro filmes por mês em dois horários, como Vidas Secas, Deus e o Diabo na Terra do Sol e outros cobrados no vestibular.
“O projeto tem uma boa receptividade, um projeto muito bom, que são divulgados filmes, obras que servem para o dia-a-dia, para o aprendizado. São filmes que servem para adquirir mais cultura, mesmo não sendo só para vestibular”, afirma Miguel Teles, 45 anos, assistente administrativo e historiador pela UFBA. Segundo Miguel, que produziu e dirigiu recentemente o documentário Vaqueiros Canudos, o maior público que o projeto tem são de alunos pré-vestibulandos, e que, quando chega a época do vestibular, assistem até 30 pessoas por sessão.
Um outro projeto da Dimas é o Quartas Baianas, que exibe todas as quartas-feiras, filmes baianos, feitos por baianos ou com temática baiana. A Sala Alexandre Robatto foi criada em 1997 e a Walter da Silveira, existe desde a década de 70. “O Secretário de Cultura Márcio Meireles foi enfático em dizer, que a sala que fez dele um cinéfilo, foi a sala Walter da Silveira”, revela Conceição Miranda, referente ao reconhecimento e importância da sala de projeção.
Ingressos mais caros
Tendo em vista que o valor do ingresso dos cinemas de Salvador não era tão barato assim, os cinemas UCI Aeroclube e o Multiplex Iguatemi resolveram aumentaram o valor de seus ingressos. O ajuste aconteceu na sexta-feira, 4 de maio, dia da estréia nacional da estréia da superprodução “Homem-Aranha 3”.
O ingresso aumentou R$ 1 a mais e muitos cinéfilos não gostaram da idéia. “Um absurdo, em vez de diminuir o valor eles aumentam, agora eu vou ter que pagar R$ 6 a meia para assistir o Homem-Aranha”, reclamou Eduardo Costa, 18 anos, que como muitos, costumavam pagar R$ 5 a meia em determinados dias e horários. Nesses cinemas os valores são cobrados conforme os dias e horários das sessões. No Iguatemi, por exemplo, segunda, terça, sexta, sábado, domingo e feriados até as 14h55 é cobrado R$ 12 (inteira) e R$ 6 (meia), a partir das 15h o ingresso aumenta para R$ 17 ou R$ 8,50. Segunda, terça e quinta R$ 15 e R$ 7,50. Já às quartas-feiras, o dia mais barato, o ingresso fica por R$ 12 ou 6, em qualquer horário.
“Já ia pouco ao cinema, agora que aumentou, vou menos ainda. Ainda bem que o cinema do Shopping Barra não aumentou”, afirmou Danilo Carvalho Santos, 15 anos. Outros preferem os cinemas alternativos e com entrada gratuita, como é o caso de Ronaldo Matos, 16 anos, que costuma ir à Sala Alexandre Robatto e Walter da Silveira. “Quando eu não tenho dinheiro para ir para os cinemas dos Shoppings, eu venho para a sala Alexandre Robatto. Venho mais aqui porque é de graça, claro”, disse.
Segundo as duas empresas, o preço ficou mais alto por causa do grande crescimento de carteiras de estudantes falsificadas. A Federação Nacional das Empresas Exibidoras de Cinema (FENEEC) suspeita que grande parte das carteiras estudantis do Brasil seja fraudulenta. E por conta disso, será preciso ter um maior cuidado na fiscalização. Somente as carteiras emitidas por entidades estudantis e grêmios serão aceitas nos cinemas. Mesmo assim, será indispensável a apresentação do comprovante de matrícula da universidade ou boleto de pagamento bancário – para estudantes universitários da rede particular – para dessa forma, ser comprovada a originalidade do documento.
“Isso é ruim, fica complicado levar todos esses comprovantes para o cinema”, disse a estudante de Fisioterapia, Camila Almeida, 19 anos. Para Roberto Viana, 17 anos, uma opção mais em conta, é a do cinema do Shopping Barra. “No Cine Barra, pago R$ 4 ou 5 a meia e ainda ganho pipoca. A fiscalização da carteirinha do estudante não é tão rigorosa como a dos outros cinemas de Salvador, espero que continue assim”.

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